Domingo, 18 de outubro de 2026

Novelas Internacionais

Exibida às 17h no Chile, “La Baronesa” surpreende com romance gay de 30 anos, crimes e segredos familiares

Novela do canal Mega conquista a liderança de audiência e aposta em uma trama adulta que dificilmente seria associada ao horário vespertino brasileiro

Milton Figueiredo

17 de outubro de 2026

Exibida às 17h no Chile, “La Baronesa” surpreende com romance gay de 30 anos, crimes e segredos familiares

Enquanto a televisão brasileira tradicionalmente reserva suas histórias mais densas e controversas para o horário nobre, o Chile vem demonstrando que uma novela exibida no final da tarde também pode abordar temas como homossexualidade, violência sexual, relacionamentos extraconjugais, vício em jogos, chantagem e crimes. É o caso de La Baronesa, produção do canal Mega que estreou em 17 de agosto de 2026, na faixa das 17h, e vem conquistando expressivos índices de audiência.

Protagonizada pela veterana atriz Loreto Valenzuela, a novela apresenta uma família aparentemente respeitável, mas sustentada por décadas de mentiras, manipulações e segredos. Um dos seus principais diferenciais está na relação homossexual entre dois homens maduros, interpretados por Carlos Díaz e César Caillet, que vivem um romance clandestino há aproximadamente 30 anos.

A abordagem chama a atenção não simplesmente pela presença de personagens gays, algo que a televisão latino-americana já incorporou às suas produções, mas pela importância desse relacionamento na estrutura dramática da história e pelas consequências que ele provoca na vida de toda uma família.

Um casamento de fachada e um amor escondido durante 30 anos

¿Un arma de doble filo? La prueba crucial que podría cambiarlo todo para Clara en La Baronesa

Antonio Márquez (Carlos Díaz) é um advogado bem-sucedido, casado com Clara (Lorena Bosch) e pai de três filhos. Para a sociedade, representa a imagem de um homem de família, respeitado e comprometido com os valores tradicionais. Entretanto, há três décadas mantém um relacionamento amoroso com León Insulza (César Caillet), médico que frequenta sua residência e é considerado um grande amigo da família.

León é também padrinho dos filhos de Antonio, situação que torna a convivência entre os dois ainda mais complexa. Durante anos, o casal precisou esconder seus sentimentos, enquanto Clara acreditava viver um casamento convencional.

O segredo, porém, não era desconhecido por todos. Aurora Valdés, mãe de Antonio e personagem central da novela, sempre soube da homossexualidade do filho. Obcecada pela reputação familiar, contribuiu para sustentar uma vida de aparências, colocando o prestígio social acima da felicidade dos envolvidos.

A história ganha uma dimensão especialmente dolorosa porque não apresenta apenas dois homens impedidos de assumir seu relacionamento, mas também uma mulher cuja vida foi construída sobre uma mentira da qual nunca teve conhecimento.

Em um dos momentos mais impactantes da produção, exibido no capítulo 40, em 14 de outubro, Clara surpreende Antonio declarando seu amor a León e presencia um beijo entre os dois. Ao procurar apoio na sogra, descobre que Aurora conhecia o relacionamento havia décadas. Em vez de demonstrar solidariedade, a matriarca exige que ela mantenha o segredo para proteger o nome da família.

A sequência desencadeia novos acontecimentos, incluindo um ataque contra Clara, que é agredida em um píer e cai no mar, dando início a uma investigação sobre seu desaparecimento.

Uma trama gay que ultrapassa a representatividade

O que diferencia Antonio e León de muitos relacionamentos LGBTQIA+ apresentados na teledramaturgia é o tempo de convivência clandestina, a maturidade dos personagens e os conflitos morais envolvidos.

León deseja ocupar publicamente o lugar que acredita lhe pertencer na vida do companheiro. Antonio, por sua vez, demonstra estar dividido entre os sentimentos pelo amante, a relação com os filhos, a responsabilidade pelo sofrimento da esposa e a submissão aos interesses da mãe.

A trama também evita apresentar o casal como moralmente irrepreensível apenas por ser vítima de preconceito. León, por exemplo, participa de ações criminosas e demonstra ciúmes e indiferença diante do perigo enfrentado por Clara. Essa construção permite tratar personagens homossexuais com contradições, ambições e atitudes condenáveis, assim como acontece com personagens heterossexuais.

A homossexualidade, portanto, não é apresentada como causa dos crimes. O que move o conflito é a combinação entre repressão, autoritarismo familiar, interesses pessoais e decisões tomadas para preservar as aparências.

É justamente essa complexidade que transforma o relacionamento em um dos principais motores dramáticos de La Baronesa.

Novela faz sucesso de audiência e supera concorrentes no Chile

A ousadia narrativa de La Baronesa não afastou o público. Pelo contrário, os números divulgados pelo Mega apontam que a produção conquistou a liderança de sua faixa horária e se consolidou entre os programas mais assistidos da televisão chilena.

Na estreia, em 17 de agosto, a novela registrou média de 801.488 telespectadores por minuto, com pico de 893.129 pessoas. Durante o mesmo período, a Chilevisión alcançou 279.376 espectadores por minuto, enquanto Canal 13 e TVN registraram 207.419 e 192.496, respectivamente.

Em agosto, seu primeiro mês de exibição, La Baronesa acumulou média de 662.210 telespectadores por minuto e alcance de mais de 3,5 milhões de pessoas.

O resultado de 15 de outubro foi particularmente expressivo: além de superar com ampla vantagem os concorrentes diretos, a novela apareceu como o terceiro programa mais assistido de toda a televisão aberta chilena naquele dia, atrás apenas de duas outras produções dramáticas do próprio Mega, exibidas no horário nobre.

A posição é significativa porque demonstra que a audiência da faixa vespertina pode competir em números absolutos com atrações noturnas, mesmo diante de uma história marcada por temas adultos.

Por que uma novela tão forte é exibida às 17h?

Para o telespectador brasileiro, habituado à divisão tradicional entre as novelas das seis, das sete e das nove da Globo, pode parecer surpreendente que La Baronesa seja exibida às 17h.

No Chile, entretanto, a televisão possui uma organização própria das faixas de dramaturgia. As chamadas teleseries de la tarde, ou novelas da tarde, representam um segmento importante da programação e não estão necessariamente limitadas a histórias leves, românticas ou familiares.

O Mega mantém uma estratégia consolidada de produção de novelas nacionais para esse período, paralelamente às atrações do horário nobre. La Baronesa, por exemplo, substituiu El Jardín de Olivia, produção que também conquistou bons índices de audiência e tratava de dramas familiares, vingança e investigação.

A escolha da faixa das 17h, portanto, não representa necessariamente uma aposta secundária. Trata-se de um espaço de programação já estabelecido, com público próprio e forte investimento do canal. Não há confirmação de que La Baronesa tenha sido concebida originalmente para o horário nobre e depois transferida para a tarde.

Essa diferença entre os modelos de televisão do Chile e do Brasil ajuda a explicar por que uma novela com tantos elementos de suspense, violência e sexualidade pode ocupar um horário que, para muitos brasileiros, ainda está associado a histórias mais leves.

E no Brasil? Uma novela assim passaria às 17h?

A comparação com a teledramaturgia brasileira revela diferenças importantes, mas também exige reconhecer os avanços já registrados por aqui.

O Brasil não desconhece relacionamentos homoafetivos nas novelas. Em 2014, Amor à Vida entrou para a história ao apresentar o beijo entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), no último capítulo da trama das nove.

Em 2015, Babilônia mostrou o relacionamento entre Teresa (Fernanda Montenegro) e Estela (Nathalia Timberg), duas mulheres idosas que viviam uma união estável.

E a faixa das seis também já rompeu barreiras. Em 2018, Orgulho e Paixão exibiu o romance entre Luccino (Juliano Laham) e Otávio (Pedro Henrique Müller), incluindo um beijo entre os personagens. Na programação do fim de tarde, Malhação: Viva a Diferença também apresentou o relacionamento entre Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio).

A diferença está na maneira como La Baronesa articula esse núcleo a uma história de crimes, mentiras conjugais, chantagens e décadas de repressão sexual.

Enquanto boa parte das produções brasileiras construiu relacionamentos LGBTQIA+ em torno da descoberta da identidade, da aceitação familiar e da conquista do direito de amar, a novela chilena coloca dois homens maduros em uma relação clandestina que envolve responsabilidades, traições e consequências devastadoras.

Isso não significa que o Brasil jamais tenha apresentado personagens gays moralmente ambíguos ou relacionamentos secretos. Significa que a combinação desses elementos em um núcleo de grande relevância, dentro de uma trama tão sombria e exibida no final da tarde, continua sendo pouco usual na televisão aberta brasileira.

Um exemplo das diferenças de tratamento ocorreu em Além da Ilusão, novela das seis exibida em 2022. A produção apresentou o romance entre Plínio (Nikolas Antunes) e Leopoldo (Michel Blois), mas uma sequência de intimidade terminou sem mostrar o beijo dos personagens. A cena provocou críticas de espectadores, embora a apuração publicada pelo NaTelinha tenha indicado que não houve corte de um beijo previamente escrito.

A verdadeira vilã é uma mulher que controla a vida de todos

Noticias - La Baronesa - Mega

Apesar da repercussão do romance entre Antonio e León, o centro de La Baronesa é Aurora Valdés, personagem de Loreto Valenzuela.

Dona de um restaurante e de uma imponente mansão, Aurora construiu sua influência sobre a família por meio do dinheiro, do prestígio social e do controle emocional.

Entretanto, sua vida aparentemente perfeita esconde um grave problema: ela é uma jogadora compulsiva, conhecida nos cassinos clandestinos pelo apelido que dá nome à novela.

Depois de perder a propriedade familiar em uma partida de pôquer para Javier Toledo (Simón Pesutic), Aurora passa a enfrentar uma situação desesperadora. O rapaz oferece devolver o imóvel caso consiga se casar com Emilia (Octavia Bernasconi), neta da matriarca.

O acordo transforma a felicidade da jovem em moeda de troca e evidencia até onde Aurora está disposta a chegar para preservar seu patrimônio.

É essa mesma lógica de dominação que sustenta o drama de Antonio. Para a matriarca, admitir publicamente a homossexualidade do filho poderia representar uma ameaça à imagem da família que passou a vida construindo.

Uma produção que desafia as convenções do melodrama

Outro aspecto que torna La Baronesa diferente é a disposição de apresentar personagens contraditórios, sem estabelecer uma separação simples entre vítimas e vilões.

Antonio é vítima de uma estrutura familiar repressora, mas também responsável por graves violências contra Clara. León sofre por não poder assumir o relacionamento, mas toma decisões moralmente condenáveis. E Aurora, embora se apresente como defensora da família, é justamente quem contribui para sua destruição.

A novela revela, inclusive, que Antonio drogou Clara e contratou homens para manter relações sexuais com ela sem consentimento, uma sucessão de abusos que transforma o casamento em uma história ainda mais perturbadora.

A abordagem se distancia do melodrama romântico convencional e aproxima a produção de um thriller familiar, no qual cada revelação pode colocar novos personagens sob suspeita.

No capítulo 42, exibido em 16 de outubro, a investigação do desaparecimento de Clara intensificou a tensão. Temendo que o relacionamento secreto venha à tona, Antonio e León enfrentam mais uma interferência de Aurora, que exige um novo pacto de silêncio.

O que “La Baronesa” revela sobre a evolução das novelas latino-americanas?

A produção chilena demonstra que a teledramaturgia latino-americana continua encontrando maneiras de renovar o folhetim tradicional.

Em vez de abandonar os elementos clássicos do gênero — a família poderosa, a matriarca autoritária, o casamento por interesse, os amores proibidos e a disputa por uma herança —, La Baronesa os combina com discussões contemporâneas sobre sexualidade, repressão, violência e relações de poder.

O principal diferencial da novela não é simplesmente exibir um beijo entre dois homens às 17h, mas construir uma história em que a relação homossexual tem consequências profundas para praticamente todos os personagens envolvidos.

Em um momento em que as plataformas de streaming ampliam a concorrência pela atenção do público, a produção também mostra que as novelas tradicionais ainda conseguem despertar interesse e reunir centenas de milhares de telespectadores diariamente.

O êxito de La Baronesa no Chile reforça uma questão para a teledramaturgia brasileira: até que ponto as faixas vespertinas precisam continuar associadas a histórias mais leves?

A experiência do Mega sugere que o horário de exibição, por si só, não impede que uma novela adulta, provocativa e repleta de conflitos conquiste a liderança de audiência.

E, pelo menos no Chile, os segredos da família Márquez estão provando que o escândalo também pode começar às cinco da tarde.

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